quinta-feira, 28 de abril de 2016

28.4.2016 - Dia da Educação no Brasil

Reza a lenda (ou a verdade, não sei...) que hoje é o dia da Educação aqui no Brasil. Não sei se temos muito a comemorar ou a lamentar. Se partirmos do início de tudo, desde 1500, quando ainda colonos, dependentes e totalmente entregues aos interesses e desmandos de uma gente que nunca esteve nem aí para "o que" e "quem" é daqui, iremos viajar numa incrível odisseia de total desvalorização e descrédito premeditados, conscientes e programados para que, em momento algum, a Educação pudesse de verdade tornar-se o que deveria ser: um instrumento de formação e desenvolvimento para um povo.

É verdade que de lá para cá muita gente boa, séria, com utopias até coerentes muitas vezes, gente que ama a forma milagrosa como se dá o desenvolvimento de uma criança, sua adolescência até chegar à juventude, gente que buscou crescer, conhecer como se faz Educação em lugares um pouco mais sérios nesse mundo velho, estudou, preparou-se, experimentou, viajou, conheceu realidades onde a simplicidade de ideologias e praxes, aliadas a um sistema político menos estragado, até tentou (e vêm tentando até hoje, embora com menos força sonhadora e bem menos fé ideológica e política) elevar o Brasil e sua DES-educação a um nível mais favorável, mais confiável, mais coerente e, verdadeiramente, relevante para esses milhões de meninos e meninas que, há tanto tempo, frequentam nossas escolas desde a colônia até os dias atuais, onde a bandalheira instalada e fomentada em nome de uma tal democracia vai muito mais na direção de alienar o povo e jamais lhe conceder algum tipo de (verdadeiro) poder, do que muni-lo com uma ferramenta poderosa, provocadora de uma verdadeira revolução dentro de uma nação, castrando o "respeitável público" de sua majestade, "a Educação".

O Brasil nasceu já sem estímulo para desenvolver sua possível vocação ao pensamento, senso crítico, espírito de pesquisa, busca por conhecimento e aplicação do mesmo ao desenvolvimento e melhoria da vida em qualquer instância. Infelizmente, de lá para cá, se formos espremer com vontade para ver que caldo sobra, iremos constatar que nosso sistema educacional hoje tem muito mais a lamentar e, sem querer ferir ou minimizar os esforços de nomes como Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Rubem Alves, Ariano Suassuna (para citar as últimas perdas recentes e contemporâneas...), do que comemorar nesse 28 de abril!

Numa sociedade como a nossa, em que o consumismo e o materialismo imperam em todas as instâncias e classes, onde as crianças tornaram-se pequenos imperadores de um "mundinho playmobil cibernético", cujos adultos prefiguram como súditos de suas pequenas e indomadas majestades com caprichos e desejos instantâneos, torna-se difícil ou quase impossível prever um futuro glorioso e digno de comemorações. Especialmente se formos constatar que esses pais, totalmente inseguros, dominados por um misto de ambição profissional a fim de obter cada vez mais dinheiro para sustentar o "padrão de vida" que as aparências sociais exigem com a dor de consciência por passar a maior parte do tempo fora de casa, longe de seus filhos, deixando-se cair na vala comum do "câmbio afetivo" financiado por seus cartões de crédito. Parece-me que cada vez que passam pela leitora seus cartões é como se um orgasmo afetivo, psíquico e emocional ocorresse junto com um resto de sinapse ilusórias nas mentes dessa safra atual de genitores e genitoras que, agonizando, tentam se auto afirmarem como pais e mães. Como não conseguem e sua culpa os torna cada vez mais silenciosamente fingidos e confrangidos em suas reais e fantasmagóricas dores de consciência, transformam esse silêncio sanguinário em falácias bem colocadas, bem preparadas, bem argumentadas e recheadas de termos jurídicos na hora de escolherem uma escola para colocarem seus pequenos indomáveis! Aí surge a figura daquela mulher, que, para a sociedade, não tinha mais nada para fazer na vida e foi cursar Pedagogia (pode até fazer curso a distância... Eu sugiro que acabem hoje com os cursos de Pedagogia e qualquer licenciatura a distância... Ninguém aprende a lidar com a psique humana de uma criança e/ou adolescente em formação lendo apostilas on-line e fazendo provas num polo uma ou duas vezes no semestre). Ultrajada, humilhada pela escolha do curso, humilhada pelo salário que recebe no fim do mês, humilhada por sua falta de preparo (infelizmente temos muitos professores totalmente despreparados e frustrados trabalhando em suas salas de aula), humilhada pela mãe e pelo pai do menino (ou da menina), que agora a enxergam como uma subalterna institucionalizada, que, também humilhada pelo sistema que dá a ela o seu emprego, tenta driblar as pressões e alterná-las com suas derradeiras utopias sobre a Educação, seus sonhos de um dia ver esses meninos e meninas tornarem-se homens e mulheres de bem, como narra todo discurso futurista, triunfalista e emocionista associado à educação de crianças e jovens.

Não sei se você que me lê irá concordar comigo, mas, nesse dia 28 de abril, apenas sete dias depois de nós, brasileiros, em grande escala, termos viajado para algum lugar para aproveitar a data que se tornou feriado porque um idealista morreu enforcado, penso que estamos, desde 1500, passando por 1792, quando a forca marcou a história desse tal Joaquim José juntamente com a história de um tal Brasil. E que, anos depois, continua na mesma forca no que diz respeito a tudo o que envolve a ética na gestão de qualquer nação e, desde então, patina em cima da mesma lama de problemas crônicos e até curáveis, mas não tratáveis. Quem tentou, morreu tentando e não conseguiu... Muito... Conseguiu pouco, mas tá valendo! Hoje, está difícil ver levantar-se alguém com esse espírito combativo, ético, ideologicamente sério, comprometido com o desenvolvimento e destino de um povo. De verdade.

Não comemoro um dia da educação no Brasil. Celebro (sem comemorar) a galhardia e nobreza de todos os que passaram, estão passando (em menor escala) e poderão vir a passar (se restarem alguns poucos exemplares de bons exemplos), que louca e destemidamente decidam batalhar por essa causa, olhando além do sistema que sempre foi vigente, exigente e... Indecente, deprimente. Para o professor e para seus alunos. Fomos sempre premiados com a gestão de tecnocratas interesseiros e politiqueiros. E assim vamos prosseguindo. Sem comemorar o sistema. Sem comemorar a silhueta grossa e fina da história verdadeira de nossa educação. Mas, respeitosamente, silente, reverente e pulsando no desejo de poder fazer algo, olhando para nossas crianças e jovens, fazendo nossa parte, em casa (primeira escola), na escola (instituição inventada para ser a extensão daquela primeira) e onde quer que tenha gente querendo aprender.. E gente querendo ensinar. Ali haverá educação para ser comemorada.


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