quarta-feira, 19 de junho de 2013

Manifestar ou Manipular? Grama ou bandeira?

Quem decide pelo manifesto precisa antes estar atento aos ecos dos gritos e de olhos bem abertos aos escombros que ficam após tal escolha. Me refiro aqui aos ecos e escombros visíveis e invisíveis. Na verdade  minha preocupação maior concentra-se justamente no que não vemos a "olho nu". Todo fenômeno massivo me traz inquietantes questionamentos sobre suas bases, seus motivos e reais desejos de quem os alimenta também se alimentando deles...

Por exemplo, quantas pessoas dessas milhares que são vistas nas reportagens, vídeos e fotos, pintadas, gritando, suadas, fisionomias desfiguradas muitas vezes, corpo suado, voz rouca, alguns marcados pelas mais imbecis e intolerantes marcas de sangue, hematomas, inchaços, roxos na face, corpo, etc... estão ali de fato brigando por algo que trará um novo sentido à sua existência? Quantos ali sabem exatamente que bandeira estariam buscando bravamente levantar? Quantos tornam-se seres humanos melhores porque gritaram, invadiram, quebraram, atearam fogo, xingaram, bateram ou apanharam?

Não gostaria que você que me lê interpretasse minhas primeiras palavras como sendo uma tentativa alienada de inverter ou julgar pessoas ou ações. Não se trata de julgamento, muito menos de inversão alienada. Apenas uma reflexão sobre algo que vale a pena fazer parte de nossas rodas de discussões, debates, aulas, nas empresas, nas escolas, nas ruas, entre as famílias: o que, de fato, é um manifesto e o que, de fato, é manipulação? Não, não estou aqui de forma redundante e repetitiva levantando críticas à mídia, aos governantes, às lideranças, ou a quem quer que seja! Não! Aliás, creio na Bíblia Sagrada como sendo a revelação da Palavra de Deus e a tenho como meu Manual de Sabedoria. Lá está escrito que "aquele que julgar a seu irmão é tolo, e que com a mesma medida com que eu julgar, serei julgado..." Portanto, minha reflexão é, antes de tudo, algo que faz minha mente caminhar na direção de uma ação que traga, primeiramente, para mim mesmo, senso de coerência, perseverança e PAZ. Sim, por que se vai às ruas? Não é em busca de igualdade, transparência, amor e paz entre a sociedade?

Correto! Nada errado nisso! Entretanto, o que me inquieta de verdade e o que me motiva a buscar com bravura e força é a minha auto inserção num evento realmente necessário e provocador de um barulhento movimento de mudança, de promoção daquelas virtudes tão essenciais à vida que citei no parágrafo anterior. Me refiro aqui àquela que, para mim, é a verdadeira revolução, àquele ato que é o verdadeiro manifesto que em sua singularidade é capaz de me devolver o equilíbrio as vezes sequestrado pela indignação, mas devolvido ao ser resgatado pela coerência. Estou falando do barulho existente na mente de quem busca, antes de qualquer mudança na sua casa, na sua rua, no seu bairro, cidade, estado ou país, uma mudança em sua própria atitude, em seus próprios pensamentos!

A massificação do pensamento e da ação me leva a uma zona que me proporciona pseudo bem estar, e me faz pensar que tudo pode estar caminhando para uma solução, ou para uma mudança, ainda que ínfima. Na verdade o que me incomoda não é o preço das passagens, a quantidade de impostos que devo pagar, a corrupção dos governantes, a tragédia da incoerência e da hipocrisia na qual nossa sociedade e o nosso planeta estão imergidos. Não! O que me incomoda realmente é saber que corro o risco de gritar e lutar por bandeiras que nem sei suas origens, pintar minha cara e meu corpo com cores nas quais não acredito, ou simplesmente fazer as coisas porque "quero fazer parte da história que meus filhos irão estudar no futuro"... Não consigo acreditar em grandes movimentos sem antes repensar e buscar, escavar, desbravar os pequenos movimentos! Sim, os pequenos movimentos que começam dentro de mim, que são frutos daquilo que sou pelo que busco, leio, estudo, oro, vivo, intercedo, recebo... A massificação me permite gritar muitas vezes porque talvez tenha brigado de manhã com meu cônjuge ou com meu filho, e na rua posso extravasar minha raiva, minha culpa, minha frustração... Sozinho, quando estou com Deus e comigo mesmo, posso realmente me ver, me autoconhecer e encontrar as verdadeiras razões pelas quais devo querer ou precisar lutar!

Acredito na força que existe no ato de MANIFESTAR, que no sentido mais simples da palavra significa demonstrar aquilo que há dentro de mim. Isto é saudável, isto é necessário, isto, feito com diálogo e decência leva à negociações tremendas, resultados tremendos, conciliações tremendas. Isto serve para o casamento, para o lidar com os filhos, com os vizinhos, com os chefes e colegas de trabalho... Manifestar é dar-se o direito de expressar o que há de melhor em nós sem vetar o direito do outro também fazer o mesmo. Quando, ainda que por causas nobres, humanas e justas, pessoas se unem para gritar, quebrar, xingar, ofender, destruir para fazer valer a lei do poder, da força, pelo simples prazer de dizer que "ganhamos", questiono-me sobre a maneira como ficam as mentes depois que tudo passa, depois que o barulho cessa e cada um volta à sua rotina muitas vezes triste, miserável, medíocre, sem sentido...

Odeio o ato de MANIPULAR, que no sentido mais simples da palavra significa forjar, forçar por indução ou ideologia (seja ela qual for...) a transformação imediata do pensamento do outro aos moldes do seu! Nenhuma mudança ocorre de maneira cretina, coerciva, massiva. Na verdade, as massas são nada mais que um conjunto grandioso de indivíduos, cada um com uma história, com suas peculiaridades, lutas, medos, desafios, conquistas, sonhos... 

Enfim, desafio você que me lê a pensar no grande manifesto que deve ocorrer a cada manhã, quando acordamos, de uma tomada séria de decisão que nos leve a reverenciar a vida, a família, aqueles que nos cercam em nossa esfera de ação e vivência. Que possamos permitir a revolução que transforme nossa mente num recipiente de cortesias, gentilezas, educação, tolerância, mais tempo com a família, com as crianças, mais diálogo, sem palavrões, sem malícias, sem bebedices, orgias, pornografias... Sim, esta é a revolução na qual eu acredito. Este sim é um ato puramente coerente de MANIFESTAR! É disso que nosso planeta precisa: homens e mulheres que não temam chamar o pecado pelo seu nome exato, que não se comprem e nem se vendam, que sejam tão fiéis quanto a bússola é fiel ao seu polo...

O mundo precisa deste tipo de manifestantes! Aliás, a tua casa precisa deste tipo de manifestantes... O teu cônjuge precisa que você se manifeste assim, teus filhos, tua família, teus amigos, colegas de trabalho! 

A verdadeira manifestação ocorre na grama, entre as formigas... Quando se cava um buraco para se fincar o mastro de uma bandeira, as formigas, pequenas e insignificantes, simplesmente nos dão uma lição grandiosa ao se reestruturarem e recomeçarem todo o processo para continuar a viver...

Formigas na grama não mudam o buraco onde será fincado o mastro... Elas mudam de atitude! Pequenas atitudes...

Acredito na força e necessidade da grama, pois sem ela não poderíamos fincar os mastros das bandeiras...

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